A escola pós-covid

A escola pós-covid

Pós-covid: Quando esse isolamento deve acabar? Quando o temor da pandemia nos deixará enviar filhos de volta às escolas e como chegaremos, pais, alunos e comunidade escolar nesse momento?

As respostas a essas perguntas sobre o pós-covid podem ser tão difíceis e imprevisíveis que muitos nem sequer ousam refletir sobre elas.

Esse momento de “casulo” que todos estamos vivendo nos remete a diferentes experiências e evidencia ainda mais a singularidade de cada ser humano, cada família, cada realidade. E é exatamente essa singularidade que vinha aparecendo em diversos discursos que tratavam dos alunos como seres únicos dentro de uma sala de aula ou de famílias que têm características e necessidades particulares e específicas.

Até aí, ok, mas…

O problema é que, quando tratávamos de educação, tudo o que víamos eram modelos muito mais próximos da era industrial do que do século XXI. Por mais que mudanças fossem apontadas, estas ainda estavam muito mais no plano de ideias ou de futuro do que na prática presente, efetivamente. Mas, de repente, sem aviso prévio, todos tivemos que improvisar.

Num primeiro momento, isso foi caótico, desesperador para muitos. Depois, cansativo, desgastante. Agora vemos os primeiros sinais de acomodação, com alguns modelos de condutas já se assentando e rotinas um pouco mais organizadas, mas os dias, ainda imprevisíveis.

Emoções continuam em sua montanha russa, variando quase que de forma incontrolável e reflexões, ora positivas, ora negativas, surgem aos montes em todas as cabeças. Essa é a experiência dos dias atuais, mas…

E quando isso tudo passar, como estaremos como escola e família?

Uma resposta certeira, novamente acho que ninguém arrisca dar, mas algumas reflexões cabem nesse momento.

Já podemos perceber um “descolamento” de modelos padrões de escolas. Nessa pandemia, cada uma segue desenhando a seu modo as próprias práticas, contatos com alunos e famílias. Cada uma, experimentando suas estratégias e a certeza que podemos colher é de que não há, nesse momento, qualquer tipo de padrão seguro a ser seguido e que, ao final desse isolamento, teremos escolas seguindo por caminhos bem diferentes, ampliando o leque de diversidade nas opções.

Com as famílias mais próximas e desafios diários explícitos, escolas estão sendo desnudadas e precisando mostrar abertamente suas capacidades de atuação, de envolvimento dos alunos, de relacionamento, de inovação e de improviso. E isso vai seguir adiante no redesenho das identidades de cada escola, mesmo na fase pós-covid.

Passamos algumas eras da educação e precisamos nos alinhar

Outro fator importante: passamos a era da educação centrada no professor, onde este era o detentor e transmissor quase exclusivo de todo o conhecimento.

Passamos a era da educação centrada no aluno, onde o protagonismo desse deveria ser a grande preocupação da vez e, sem que nos déssemos conta, adentramos a era da educação centrada na relação, onde a aprendizagem é um processo construído em conjunto, a partir da interação professor-aluno-alunos.

O problema é que muitas escolas estão com práticas de educação centrada no professor, discursos de educação centrada no aluno e demandas de educação centrada na relação. Há que se alcançar o equilíbrio! E tem-se pouco tempo para isso. O Covid-19 nos pegou de jeito, mas vai acabar e, quando isso acontecer, nós, escolas, teremos que olhar nossos pais e alunos nos olhos novamente! E teremos que dizer-lhes algo…

A relação será essencial!

Quando tudo isso acabar, reabriremos as portas de nossas escolas para um universo diferente. Para crianças, jovens e famílias marcados por um isolamento difícil. Nos depararemos com demandas emocionais que terão de ser encaradas e que entrarão em nossas escolas. Teremos pessoas diferentes, professores transformados e alunos, anos luz à nossa frente no quesito “adaptabilidade”. E, nesse cenário, a relação que seremos capazes de estabelecer com eles será determinante para a nova conexão.

O que a escola precisará fazer diante disso?

  • Repensar seus planos: como receberemos famílias e alunos? Que aprendizados e planos apresentaremos a eles? Quem seremos depois disso tudo passar?
  • Repensar as relações: até onde queremos avançar na parceria família-escola? Seremos capazes de somar forças ou continuaremos num jogo “batata quente” de transferência de responsabilidades? Essa relação será uma via de mão dupla realmente equilibrada e parceira?
  • Que propósito teremos? Transmissão de conteúdos e aprovação no vestibular ou efetivamente uma preparação desses alunos para um futuro incerto, desconhecido e, definitivamente, tecnológico?
  • Que lugar o desenvolvimento das habilidades não cognitivas terá em nossas práticas? Central, ao lado das cognitivas, acessória ou será apenas uma “faz de conta” em nossa realidade?
  • Que valor e que apoio daremos a nossos professores para que tenham recursos que lhes permitam promover as mudanças necessárias, na velocidade exigida?
  • Que valor e que espaço daremos à inovação, à pesquisa e aos estudos junto à equipe? Parar para “afiar o machado” pode ser a “grande sacada”!

E que parte cabe aos pais nesse futuro das escolas?

Esse papel é determinante!

O que aprendemos enquanto pais nessa experiência? E o que buscaremos para nossos filhos nas escolas? Que valor daremos aos professores? E quais expectativas transferiremos?

Muitas escolas entregam o que seus pais pedem e muitos pais não sabem o que pedir! Exatamente por isso, esse é o momento!

Nos aproximamos da educação de nossos filhos, nos deparamos com suas necessidades e com as exigências do futuro como nunca antes havíamos feito. Diante disso, o que buscaremos para a formação de nossos filhos?

Que apoio estaremos dispostos a dar à escola de nossos filhos e que direcionamento buscaremos para a educação deles?

Essa escolha é pessoal, e os frutos dela, coletivos! Novamente precisamos pensar no todo, em todos para que a mudança traga melhorias significativas.

Uma única pessoa não muda a sociedade, mas educação muda um País!

E nós, pais, podemos apoiar a mudança nos rumos da educação! Vejam que falei apoiar, não exigir. Isso contempla um “fazer com” incondicional!

O futuro já chegou, nossos filhos estão nele e nós? O que escolheremos fazer?

Renata Melo
Fundadora da LUDIE
https://www.linkedin.com/in/renata-melo-7280989b/