Autonomia coerente: o que é isso?

Autonomia coerente: o que é isso?

Autonomia coerente é o equilíbrio entre a liberdade e os limites

Quantas vezes você já se perguntou: “Será que essa criança é capaz de fazer isso?” e se surpreendeu com uma capacidade que não imaginava que esse pequeno já tivesse desenvolvido? E com uma fala de um adolescente que te encanta com a tamanha maturidade contida nela?

Não importa se estamos falando de um filho, de alunos ou de alguma criança que esteja por perto. O fato é que todas elas se desenvolvem superando limites. É assim que aprendem a evoluir de um engatinhar para um andar e correr ou de um balbuciar para as primeiras palavras e, depois, frases.

As crianças se desenvolvem quando se desafiam, quando têm a oportunidade de tentar, de errar e de tentar de novo, mais uma vez, e outra, e outra.

Como aprendizes ou “pequenas cientistas”, elas funcionam assim: curiosas, ousadas, sapecas.

E nós, adultos, como encontramos a medida certa de autonomia que podemos dar aos pequenos? Como reconhecemos quando estão prontos para experimentar novos desafios? Como dosar a liberdade que é base da autonomia dos adolescentes?

Essas são perguntas interessantes, pois nos ajudam a medir o quanto estamos amadurecendo como educadores. Eu arriscaria dizer que o amadurecimento do educador (pai, mãe, professores) é proporcional à autonomia coerente que ele é capaz de disponibilizar à criança e ao adolescente.

Mas, você sabe o que é autonomia coerente?

Há um limite entre superproteção e autonomia que, às vezes, é difícil de identificar. Também há diferença entre autonomia e permissividade, e isso pode nos colocar em situações delicadas.

Portanto, se queremos apoiar uma autonomia coerente na educação de nossos filhos e alunos, precisamos pensar sobre interesses, resultados e, principalmente, sobre nossas ações.

A autonomia coerente é aquela que permite à criança ou ao adolescente desenvolver suas capacidades e construir sua independência, sem extrapolar limites importantes ao seu redor, que afetem a segurança e o bem-estar de todos.

Há limites que são intransponíveis e o respeito a eles evita uma liberdade desenfreada, e muitos outros que podem e devem ser transpostos, permitindo a construção de uma autonomia coerente.

Já sabemos que o ser humano se desenvolve superando limites, então a questão agora é sabermos quais limites podem ser superados e quais não podem. Eis aí o primeiro desafio de coerência para pensarmos:

O limite que coloquei é coerente?

A primeira pergunta é saber se o limite imposto à criança ou ao adolescente é para sua segurança e de outros ao seu redor ou é uma insegurança ou excesso de zelo que, de alguma forma, inibe seu desenvolvimento.

Nessa dúvida, uma mãe, por excesso de preocupação com a saúde, pode inibir o desenvolvimento motor de um bebê por não colocá-lo no chão para que explore o espaço e aprimore sua coordenação a fim de engatinhar. Ou um cuidador de um adolescente pode seguir preparando-lhe o leite todos os dias por sentir que a infância de seu filho está passando e, sem intenção, pode prejudicar seu amadurecimento na construção de sua autonomia.

Por outro lado, também podemos dar um excesso de liberdade em função da construção dessa autonomia que, ao invés de ajudar, prejudica.

A criança e o adolescente precisam ter liberdade para tentar, explorar, questionar, mas também precisam conhecer claramente alguns limites que são intransponíveis.

Questões relacionadas à segurança física, bem estar coletivo e regras que regem o bom funcionamento de uma comunidade precisam ser respeitados. Por isso, não se grita num hospital, espera-se a vez numa fila e respeita-se o sinal vermelho e as determinações do trânsito.

A partir dessa reflexão, temos um segundo desafio de coerência na construção da autonomia de uma criança ou um adolescente:

Como me sinto diante das tentativas de autonomia da criança ou do adolescente?

Aqui temos duas questões igualmente importantes: será que estou preparado para ser firme diante de alguns limites e também aceitar que algumas capacidades já se desenvolveram e estou cada vez mais dispensável na vida desse pequeno já não tão pequeno assim?

Obviamente, na teoria, todos os educadores, sejam pais, professores, familiares, querem que suas crianças cresçam e se tornem adultos maduros, preparados para vida.

Entretanto, isso é uma teoria que pode ser dolorosa na prática, afinal ouvir um filho dizendo que não precisa da nossa ajuda para preparar sua comida, que quer ir sozinho para escola ou que já se sente pronto para administrar algumas relações em sua vida, pode ser um tanto dolorido, preocupante e até mesmo assustador.

E como lidamos com isso? Trazendo para a prática aquela frase teórica que citamos acima e aceitando que crescer às vezes dói e que a autonomia de um filho exige amadurecimento dos pais.

Apoiar a construção da autonomia de uma criança ou de um adolescente pressupõe aceitarmos que ele está crescendo e que precisa assumir o protagonismo de sua vida e que nós, pouco a pouco, vamos passar do papel de “condutores” para um papel de “espectadores”.

O amadurecimento de uma criança também é uma conquista dos pais

Quando aceitamos essa mudança de papel na vida de nossos filhos e conscientemente apoiamos a construção da autonomia deles, sem nos culpar e permitindo-nos sentir também, conseguimos perceber que o amadurecimento deles é uma conquista nossa também, ao permitir-lhes ter espaço, e vê-lo fazendo bom uso dele.

Assim, sabemos que essa autonomia é fruto de momentos em que nos dedicamos, orientamos e construímos juntos, momentos em que nos emocionamos e choramos assistindo de longe a conquista desses “pequenos protagonistas da própria vida”.

Saborear cada vitória deles é uma das grandes dádivas que recebemos ao longo de nossas vidas e que nos permitirá, no futuro, olhar para trás e dizer:

Sei tudo que o amor
É capaz de me dar
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar
Se chorei
Ou se sorri
O importante
É que emoções eu vi”

(Erasmo Carlos e Roberto Carlos)