Boneca Momo: como proteger nossas crianças?

Boneca Momo: como proteger nossas crianças?

Boneca Momo pode ajudar a nos anteciparmos aos perigos da Internet

Novas formas de violência que chegam até nós

O contato com a tecnologia e o acesso à internet pelas crianças é uma realidade. Elas já nasceram inseridas na era digital, diferentemente de nós.

E como tudo é muito diferente, muito rápido, e abre um acesso quase ilimitado a um mundo virtual, recentemente temos nos surpreendido com situações problemáticas envolvendo crianças e adolescentes na internet: como o da boneca Momo, que retornou às mídias neste mês de março, o da Baleia Azul, exatamente no mesmo período do ano passado e outros casos delicados como os de cyberbullying, por exemplo.

Diante dessa repercussão, para ajudar os pais, os professores e a escola como um todo, na Ludie propomos trabalhar uma reflexão sobre casos como a da boneca Momo a partir de uma perspectiva um pouco mais ampla.

Dessa forma, queremos antecipar situações que possam surgir devido aos perigos da internet trabalhando o impacto da tecnologia na criança e no adulto.

A Momo é uma escultura de uma boneca, com longos cabelos negros, olhos grandes e um largo sorriso. Em 2018, viralizou a história de que sua imagem começou a circular no WhatsApp por pessoas mal intencionadas juntamente com o envio de mensagens perturbadoras.

Agora, a informação é de que a Momo tem aparecido em vídeos da plataforma Youtube incentivando as crianças a promoverem atos de violência danosos a sua própria vida.

O desafio se assemelha ao “Desafio da Baleia Azul”, que promovia o suicídio e a violência entre crianças e adolescentes em todo o mundo. No Brasil, existem processos em andamento sobre a Baleia Azul, inclusive um em que o indivíduo confessou ter feito vítimas no jogo.

Ambos os casos são novas formas de violência que estão chegando até nós. São ataques indiscriminados que não têm precedentes muito longos, porque a internet ainda é uma “jovem” para a realidade humana que não a “vivenciou” na infância anteriormente.

Por isso, estamos todos aprendendo a lidar com isso. E esse tipo de coisa “nova”, toda vez que acontece, nos assusta, principalmente porque os nossos filhos, que são o que temos de maior valor, de repente podem estar expostos a ela.

Bateu na porta do lado, e se bater na minha? Como é que eu vou fazer?

O que podemos fazer?

Apesar do susto e do sentimento de insegurança que situações como essa podem gerar, se apavorar certamente não é a melhor solução.

Para agir de forma consistente em casos como esse, precisamos trabalhar em dois pilares: olhar para as necessidades internas do adulto e para a necessidade de atuação junto à criança.

Quando olhamos para nós, adultos, temos que ter a consciência de que o uso da tecnologia ainda é uma coisa nova, que traz muitas dúvidas e muitas inseguranças exatamente porque não vivemos isso no passado. Não temos uma experiência acumulada.

Pensando nisso, primeiramente, queremos recomendar:

PARA PAIS E PROFESSORES:

1)  Acalme-se 

Em primeiro lugar, precisamos tentar não nos desesperar com esse tipo de notícia, mas entender que essa é uma realidade que está chegando para nós hoje.

Ruim, sim. Assusta, sim. Mas, apesar disso, temos que pensar em mecanismos para lidar com a situação, os quais veremos mais adiante.

Gerenciar nossas emoções, o susto, o nervoso, o desespero, a insegurança é um desafio grande, mas é o passo essencial para conseguirmos refletir e agir de forma assertiva.

É na serenidade de pensamentos e sentimentos que encontramos as melhores alternativas.

2) Confirme as informações

Esse segundo ponto também é fundamental, mas muitas pessoas não fazem: checar a veracidade das informações.

No caso da boneca Momo e da Baleia Azul, realmente existe o problema de pessoas mal intencionadas querendo desencadear atos de violência, mas nem todas as notícias são verdadeiras, como por exemplo, os vídeos estarem também na plataforma Youtube Kids, destinada ao público infantil.

Pergunte-se: será que isso é verdade? Quando você vai investigando e procurando saber, acaba descobrindo que uma série dessas informações são, na verdade, sensacionalismos para conseguir audiência, compartilhamento, divulgação de site, de blog, entre outros.

Isso pode parecer óbvio, mas uma pesquisa publicada na revista Science, feita por pesquisadores do Instituto Tecnológico de Massachussets (MIT) aponta que uma notícia falsa tem 70% mais chances de ser compartilhada.

PARA LIDAR COM AS CRIANÇAS

No nosso dia-a-dia, há 3 passos importantes que podem tornar mais seguro o acesso das crianças à internet:

1) Orientar

Orientar: o primeiro passo é ter a preocupação de orientar.

Explicar de forma clara para a criança o que ela pode e não pode fazer, quais são os limites e permissões para o uso da internet. E, principalmente, dar abertura para a criança poder procurar os adultos, poder procurar a orientação dos pais ou dos professores quando estiver na escola.

Aqui temos um ponto crucial: orientar de forma explicativa, e não autoritária.

Quando somos autoritários, muitas vezes, bloqueamos o acesso da criança a nós (por receio ou medo de levar uma bronca), mas, quando explicamos os motivos, ela entende o que acontece e se sente mais à vontade para nos trazer dúvidas e questionamentos.

Orientar é completamente diferente de punir.

Se a criança tiver medo de levar uma bronca quando ela vai contar alguma coisa, ela tende a ficar quieta. Mas, se a criança tem um canal de comunicação bom, ao se deparar com alguma coisa que assunta ou que ameaça, ela tende a procurar nossa ajuda.

2) Monitorar

O segundo passo é muito importante e compreende o monitoramento das atividades e acessos na internet.

Crianças e adolescentes não estão prontos para tomar todas as decisões e nem para avaliar os impactos de determinadas situações em suas vidas porque ainda estão em fase de desenvolvimento e amadurecimento.

Além disso, às vezes, por mais que as orientemos, vão “escorregar” e ser levados pelo esquecimento ou pelo entusiasmo de encontrar alguma coisa nova ou chamativa.

Em função disso, é essencial monitorar vídeos, textos, conversas e tudo mais que a criança entrar em contato no mundo virtual.

Assistir a alguns vídeos juntos, participar de alguns jogos de interesse deles, conversar sobre curiosidades que aparecem e trocar experiências do mundo virtual pode aproximar essa relação triangular – pais, filhos e internet – e facilitar esse monitoramento que deve acontecer de formas diferentes de acordo com a idade da criança.

Pequeninos não devem ter acesso irrestrito e precisam de um monitoramento muito presente, crianças maiores já podem fazer algumas escolhas e ter um pouco mais de liberdade, ainda que com alguns filtros bem controlados e adolescentes precisam muito de conversas e reflexões, mas ainda nesses casos, monitoramentos, mesmo que esporádicos, se fazem necessários.

3) Informar

O terceiro passo é informar de forma clara, verdadeira e apropriada à faixa etária.

Às vezes, por amor, proteção e cuidado podemos superproteger a criança, o que pode ser ruim à medida que cresce.

Na realidade não conseguiremos criar nossos filhos numa bolha. Em algum momento, o mundo chegará até eles sem que nossa total proteção os cubra.

E aí, eles terão que experimentar vivências reais e agir por eles mesmos, segundo seu repertório pessoal.

Quando educamos uma criança, a estamos preparando para o mundo, para lidar com os desafios da vida. E nessa preparação precisamos contemplar o fato de que a vida não é feita só de prazeres, alegrias e bondades.

Na vida, cedo ou tarde, a criança também vai se deparar com obstáculos, desafios e maldades.

Infelizmente, intenções não positivas ou ruins existem. Se fecharmos a criança nessa bolha de proteção e a impedirmos de saber da existência do mal, ela estará menos preparada para o futuro.

Por isso, por mais duro que possa nos parecer, há coisas ruins que a criança precisa saber e é melhor que ela saiba por nós, de uma forma correta e equilibrada com suas capacidades de compreensão.

Quanto mais conversarmos com nossos filhos, mais poderemos ajudá-los a se preparar para viver no mundo e quanto mais conversamos, mais nos aproximamos de nossos filhos.

É importante a criança internalizar a ideia de que “me sinto segura com meus pais e posso contar com eles”.

Assim, na hora do susto, do medo ou do desespero, é ao adulto que ela vai recorrer.

Nesse sentido e relacionando com o caso da Momo, o medo daquilo que a boneca está falando passa a ser menor do que a confiança que ela tem de que seus pais podem ajudar a resolver o problema.

Como falar da boneca Momo com a criança?

No caso da boneca Momo, se a criança é muito pequena, os pais podem monitorar, ficar de olho e segurar um pouquinho essa informação.

Agora, se essa criança é um pouco maior (por volta de 3 a 6 anos), já consegue entender e ter uma conversa mais próxima e clara, os pais podem explicar, de forma simples, que há uma boneca feia, malvada e que conta mentiras aparecendo na internet.

Pode dizer que a boneca Momo é de mentira e pedir para contar ao adulto se encontrar algo que assuste ou incomode. Não há a necessidade de dar muitos detalhes dessa boneca para essas crianças, como mostrar imagens e vídeos.

Para crianças que tem mais contato com a internet, como as que estão no Ensino Fundamental (com idades entre 8 e 11 anos), é importante que tomem conhecimento dessas situações pelos próprios pais de uma forma um pouco mais consistente. Até porque, quando um assunto desse tipo viraliza, os amigos comentam, outras pessoas na escola comentam e não é possível blindar a criança.

Por isso, é importante informar, trabalhar essa informação com a criança abordando, inclusive a questão de que ela vai se deparar com algumas maldades e mentiras e que é preciso pensar sobre o que chega até nós: “nem sempre nós, pais, estaremos por perto para te orientar, mas você já é crescido o suficiente para perceber algo que não é legal e vir até nós para tirar suas dúvidas. Há questões que nos assustam e outras que nos fazem mal e podemos pensar juntos sobre elas!”.

Se a criança já estiver numa faixa etária maior, é importante ter uma conversa bem mais aprofundada sobre a boneca Momo e englobar intenções, consequências e influências.

Explicar: “Olha, está acontecendo isso… Essa situação foi criada por esse motivo… Fizeram por isso, isso e isso… Tenha cuidado, preste atenção nisso… Você já sabe filtrar um pouco mais, avaliar se isso é legal ou não, se vai agregar ou atrapalhar… É importante você contar para a gente também essas coisas, pois podemos te ajudar…”.

Atualmente, estão surgindo os primeiros estudos e orientações sobre o uso da tecnologia na infância.

Não que elas não devam ser consideradas, pelo contrário, mas precisamos entender e somar essas orientações à questão da importância de estarmos atento aos sinais que as crianças e os adolescentes nos dão.

Prestar atenção no que ela está fazendo e em como o uso dessa tecnologia em geral está repercutindo na vida dela.

Como anda seu estado de ânimo, seu humor e seu processo de socialização? Ela tem amigos no mundo real e no mundo virtual? Depois que ela desliga o computador, como ela está? Está calma, tranquila, nervosa, irritada, agitada ou agressiva ou não? Há algum indicador de dependência?

Precisamos olhar quais impactos que essa tecnologia causa no dia-a-dia de nossos filhos.

Por fim, é fundamental enfatizar o ato de prestar atenção na criança e nos sinais não verbais que ela manifesta.

A criança está mostrando o tempo inteiro para quem está perto dela o que está acontecendo: se ela está bem ou não, se está triste, feliz ou ansiosa, se está equilibrada, se tem carências emocionais.

Conseguimos ver de fato quando nos atentamos a isso. Por isso, pais, é essencial prestar atenção nesses sinais que trarão bases para tomar as decisões mais acertadas com relação a esses assuntos.

Veja também a fala de nossa fundadora Renata Melo sobre o tema neste link.