Cinco dicas práticas para construir a saúde emocional em meio a uma crise

Cinco dicas práticas para construir a saúde emocional em meio a uma crise

“Tudo que é contraditório cria vida” (Salvador Dalí)

Esta pequena frase pode incorporar muito do que estamos vivendo hoje e, principalmente, muito do que podemos extrair dessa experiência.

Nunca o ser humano foi colocado tão frente a frente com sua própria humanidade. De repente nossos planos, estruturas e realidades foram paralisadas ou significativamente alteradas por um inimigo invisível, minúsculo e extremamente eficaz.

E agora estamos nós aqui, em nossas reclusões, com nossas famílias e com nossa própria essência humana, tendo que nos equilibrar, reinventar e lançar mão de uma série de habilidades que nunca ou pouco treinamos antes. Com quantos diferentes sentimentos nos deparamos nas últimas semanas? Nos últimos dias? E quão voláteis são essas experimentações?

Ansiedades, medos, inseguranças e essa grande “montanha-russa emocional” que os dias atuais têm nos proporcionado expõem fragilidades e trazem desafios que podem nos abalar significativamente ou nos edificar nessa mesma proporção.

Ambíguo? Com certeza, mas…

O resultado vai depender da forma como cada um de nós escolhe olhar ou agir.

Assim como toda moeda tem dois lados, toda experiência tem seu lado positivo e seu lado negativo. Nesse cenário, podemos escolher o que considerar, desde que saibamos gerenciar um pouco nossos próprios pensamentos e sentimentos. E isso é muito mais treino do que inspiração profunda. É um processo contínuo de evolução.

Momentos de crise podem gerar grandes aprendizados, depois de toda tempestade vem uma calmaria, serenidade pode ser a grande diferença… Tudo isso já sabemos na teoria, mas, será que estamos prontos para colocar em prática?

Seguem abaixo algumas reflexões que podem ajudar a “assumir o controle e gerar saúde mental” neste momento de crise. É claro que não há, aqui, a pretensão de sanar todas as dificuldades, mas passos importantes podem ser dados nesse sentido, até porque temos dois desafios a vencer: o período da crise e o período pós-crise.

5 dicas práticas para construir a saúde emocional em meio a uma crise

Escolas e seus profissionais entraram no olho de um furacão, tendo mil demandas e desafios diferentes. Tudo quase sem tempo para se preparar ou se organizar.

A primeira etapa passou e alguns efeitos colaterais começam a surgir fortemente. Por isso, parar para “afiar o machado” é necessário. Então, vamos pensar juntos?

  1. DESMISTIFICAR O ERRO

Muito já se falou sobre a importância de olhar erros como fontes de aprendizado, mas a verdade é que, se queremos assimilar isso, precisamos quebrar vários paradigmas internos e isso exige esforço consciente. Por quê? Porque durante toda a vida a maioria de nós aprendeu que errar era ruim, motivo de vergonha, sinal de fracasso.

Quando erramos, o que sentimos? Temos coragem suficiente de experimentar e correr o risco de errar? E temos resiliência suficiente para aprender com o erro, aprimorar processos e tentar novamente?

Essas são questões sempre levantadas e, em reuniões de startups, por exemplo, uma máxima surge: a grande chave da sobrevivência é ser capaz de testar, errar, corrigir e testar de novo. Tudo de forma simples e rápida!

Para escolas e professores: Esse é um ótimo momento para testar e errar; famílias e alunos sabem que não temos o produto pronto, ninguém tem! No processo estão sendo medidos empenho, habilidades de adaptação e novas propostas. E resultados estão sendo considerados pela capacidade de estabelecer conexão e vínculo. Por isso, a grande chave aqui é: talvez nossos professores não dominem a tecnologia, mas têm em mãos um recurso poderoso que podem acessar: conexão com os alunos. Professores são referências e conhecem seus alunos, e nesse momento isso pode criar uma proximidade determinante! Experimentem sem medo de errar e estejam prontos para corrigir percursos rapidamente, afinal, ninguém vai acertar 100% na primeira tentativa. Não vai e nem precisa!

  1. METAS CLARAS E PROPÓSITOS ALINHADOS NO RADAR

“Se não sei onde quero chegar, qualquer caminho me serve” (Alice no País das Maravilhas)

Pode ser óbvio, mas, em momentos de crise, ter serenidade para não se atrapalhar é uma habilidade que poucos acionam. Em momentos de crise, focar no essencial e simplificar ações pode ajudar a diminuir o peso da pressão e das incertezas. Não consigo prever cenários futuros agora, mas em que posso focar? Quais serão meus objetivos de curto prazo? O que preciso fazer hoje, amanhã e depois?

Além disso, incluir propósito nessas reflexões funciona como um mecanismo de “autoabastecimento emocional”. Quando me esforço por algo que faz sentido para mim, que está alinhado com meu propósito, tenho mais forças para enfrentar provações do caminho. E nesse ponto, a educação está cheia de propósitos verdadeiros!

Para escolas e professores: não adianta muito gastar energia agora com “o que será da educação meses à frente ou o que terá sido perdido com essa crise atual?”. A maioria dessas reflexões ou serão meras especulações ou serão cenários muito futuros para nós que temos que lidar com demandas e aprendizados de hoje. Então que tal mudar o foco: “Se conseguir me reinventar hoje e aumentar meus acertos, tudo lá na frente será facilitado. Pensando nisso, o que é essencial que meus alunos aprendam hoje? Como posso encontrar mecanismos para me divertir com meus alunos nesse processo?”. Talvez alguns conteúdos não sejam tão aprofundados, mas outros aprendizados podem se tornar muito significativos e facilitar sua atuação em sala quando tudo passar.

  1. MEDO E ANSIEDADE AJUDAM OU ATRAPALHAM?

Nem sempre esses sentimentos podem ser ruins. Se tivermos as ferramentas certas, podemos extrair o lado positivo com eles! Para isso, precisamos ter a coragem de nos permitir sentir. Novamente algo desafiador, pois, muitos de nós aprendemos exatamente o contrário: esconda seus sentimentos, engula o choro, pare de “frescuras”.

Pois bem, aceitando ou não, o fato é que a realidade atual nos colocou numa montanha-russa emocional. Então a escolha está em exatamente considerar o que faremos a partir disso: aceitar me conhecer, com todas as minhas fragilidades e limitações, ou gastar uma energia enorme tentando negar emoções e sentimentos que são um fato concreto.

Feita essa reflexão, podemos nos apropriar de um conhecimento importante:

  • medo: pode ser bom ou ruim – bom por nos proteger ou ruim por nos paralisar. O que nossos medos têm nos causado? E o que descobrimos ao os olharmos de frente? Quem pode nos ajudar a organizar nossos medos e os superar, passo a passo?
  • ansiedade: um sentimento complexo causado por inúmeras projeções de futuro – ficamos ansiosos por algo que pode acontecer ou não, ou seja, por algo que não é real, ao menos, não ainda. A ansiedade pode ajudar a nos preparar para o futuro, mas, em doses exageradas, nos impedir de evoluir no hoje. Diante disso, qual é nossa escolha: viver ansioso e preso numa constante incerteza de futuro ou fazer o caminho de volta para chegar no presente? Olhar para o futuro, muitas vezes, é necessário, mas viver constantemente nele é, muitas vezes, um grande erro.

Para escolas e professores: usar o apoio da equipe pode ser um enorme diferencial. Não precisamos ser perfeitos em tudo e nem ter todas as respostas. Todos podemos aprender juntos e construir uma rede de apoio. Minha dor não é só minha e saber que outros colegas passam por ela pode ser um grande alívio. Além disso, vale lembrar que essa geração de alunos já sabe aprender sozinha muitas coisas (uso de tecnologias, por exemplo) e isso significa que também podemos aprender juntos muitas coisas… Talvez eu possa ensinar meus alunos sobre português, matemática ou física, enquanto posso aprender com eles sobre melhores formas de usar ferramentas tecnológicas. Quem disse que os professores precisam ser os grandes detentores do conhecimento em todas as frentes? Quem disse que precisam ser youtubers profissionais? Por que não podemos usar esse momento para viver o que Paulo Freire tanto pregou “Quem ensina aprende ao ensinar. E quem aprende ensina ao aprender”? Podemos construir juntos!

  1. UM PASSO POR VEZ

Mais do que ter respostas, o diferencial está na capacidade de aprender a partir do processo. Essa é uma das grandes habilidades do século 21, já predita pela UNESCO: aprender a aprender. Que rico momento para desenvolver essa habilidade estamos vivendo, não?

Novamente, com serenidade e sem grandes cobranças, coragem, abertura e organização são a bola da vez. Coragem para enfrentar medos e inseguranças, abertura para tentar novas possibilidades, descobrir novas ferramentas e fazer as correções necessárias no processo e organização para definir etapas, mensurar resultados e desenhar próximos passos.

Não precisamos ter o caminho todo planejado, mas precisamos ter claro quais serão os próximos degraus a subir. Isso nos garantirá a possibilidade de continuar evoluindo sempre! Um hábito vital para o momento atual e estratégico para o momento futuro.

Para escolas e professores: em meio a tantas tribulações, “quebrar o problema em partes” pode nos ajudar a dar conta dele. Nossas escolas não são estúdios de gravação e nossos professores não são youtubers. Ok, sabemos disso e nossos alunos, também. Nenhuma família nos contratou esperando essas qualificações. Fomos contratados para ensinar, nos relacionar e apoiar processos de aprendizagens e isso nós sabemos fazer. Esse é o primeiro degrau.

O que mudou foram os meios, não nossa essência. Que grande alívio! Agora, mais calmos, podemos pensar nos próximos passos, em degraus que sejam POSSÍVEIS de serem alcançados. Dentro das minhas possibilidades “Como serei, hoje, um pouco melhor do que ontem e como farei, amanhã, algo um pouco melhor do que hoje?”.

Para entender melhor isso, olhe para as suas capacidades no primeiro dia de quarentena e olhe para suas capacidades hoje. Veja quanta evolução houve e aproprie-se dela! Há mérito nisso e esse mérito é seu! Maravilha, o caminho já foi iniciado, agora é só garantir que ele continue e que haja sempre evolução presente!

  1. HUMANIZAR PROCESSOS

Já lemos muita coisa especulando sobre a substituição de homens por máquinas e sobre o papel da escola e do professor no futuro. Alguns dizem que empregos serão substituídos, outros, que serão reduzidos ou completamente modificados, mas nunca vi alguém dizer que escolas ou professores deixarão de ser importantes. Muito pelo contrário, se tornarão cada vez mais essenciais.

A experiência que vivemos hoje nos escancarou essa comprovação: relações humanas estão sendo vitais. Quantos vídeos, mensagens e textos falando sobre o valor dos abraços, saudades e contagens regressivas para estar com pessoas amadas circulam nas redes sociais?

Certamente máquinas vão ganhar cada vez mais espaço em nossas realidades. A tecnologia veio para ficar, mas não está nem perto de substituir a capacidade humana de gerar vínculos e construir relações. Ainda não inventaram uma máquina que substituísse o calor de um abraço humano. Por isso, processos, conteúdos e informações provavelmente serão absorvidos por máquinas, sim, mas o que tange humanizar esses processos, isso ainda ficará a cargo dos seres humanos, ao menos, por um bom tempo!

Para escolas e professores: essa é a demanda que assume a linha de frente das escolas a partir do confinamento – sai na frente quem consegue se relacionar melhor! Na quarentena, têm melhores avaliações as escolas que se aproximam dos alunos de forma genuína. Desempenho de alunos presos a “listas de exercícios” ou “aulas gravadas de professores desconhecidos” caem gradativamente, assim como seu envolvimento e comprometimento. Sem tempo para grandes pesquisas, “conversas de grupos de WhatsApp” comprovam: quem não é visto, não é lembrado e, a médio prazo, perde muito valor…

Esse é um ponto crucial para escolas e professores: ou as relações que estabelecemos com nossas famílias e alunos são um fortalecedor ou irão nos fragilizar significativamente. E, aqui, precisamos ressaltar um fator-chave: relação é uma via de mão dupla, ou seja, construída a duas pontas. Não dá para imaginarmos, como escolas, que passar mil informações e conteúdos é suficiente. Talvez seja até que outra escola cruze os caminhos de nossas famílias e se mostrem mais dispostas a ouvir e construir junto.

E não adianta, como professores, acreditarmos que abrir uma aula virtual basta para nos conectarmos com nossos alunos. Conectar significa “estabelecer conexão entre, unir”. Nesse processo, precisamos fazer com que nossa sala de aula virtual seja um ambiente onde todos participam e sintam-se verdadeiramente unidos, pertencentes a ela.

Hoje não temos todas essas respostas, mas o momento atual é de experimentações e aprendizados, pois a habilidade de construir conexão será, certamente, essencial quando tudo isso passar. “Como faço para me tornar mais próximo de meus alunos? O que os conecta a mim? O que meus alunos responderiam se recebessem essas questões?”. Dia a dia, passo a passo, se mantivermos essas perguntas no radar, com certeza evoluiremos na humanização do que construímos em sala.

Para terminar, gostaria de deixar uma mensagem:

Nada precisa estar pronto agora. Nada precisa estar 100% certo. Não existe um caminho único para o sucesso. O sucesso está no caminho. É construído um pouco a cada dia e só pode ser notado, quando olhamos para trás.”

Educação é assim: construímos hoje, vemos nosso crescimento pessoal quando olhamos para trás e a evolução de nossos alunos aparece quando olhamos bem à frente.

Um abraço a todos! Estamos juntos nessa jornada!

Renata Melo
Fundadora da LUDIE
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