Estágios da birra: conheça cada um e aprenda a lidar com eles

Estágios da birra: conheça cada um e aprenda a lidar com eles

Os estágios da birra são como o pavio de uma bomba: conhecer cada um nos ajuda a atuar antes que a chama se aproxime da bomba!

A birra é uma parte importante do desenvolvimento infantil e as crianças apresentam esse comportamento de diferentes formas e intensidades.

Em uma fase em que elas ainda conseguem refletir pouco sobre o que estão vivendo e têm poucas ferramentas para lidar com a frustração, sua comunicação passa a ser, muitas vezes, corporal.

Mas isso a maioria de nós já sabe, o que poucos se atentam são aos estágios da birra e suas chances de atuar em cada um deles.

Gosto de fazer um paralelo com uma bomba e seu pavio: os primeiros estágios da birra acendem o pavio e temos chance de apagá-lo antes de a bomba detonar, mas, se negligenciarmos essas etapas, a intensidade da tensão aumenta e a bomba explode!

Eis a birra intensa, na qual a criança literalmente “surta numa crise de gritos e choros”.

Descrevemos abaixo alguns estágios para ilustrar as fases de uma birra:

ESTÁGIO 1

Uma birra nunca começa em seu estágio máximo, com um alto nível de estresse. A criança começa a dar os primeiros sinais de insatisfação ou de uma expectativa criada de forma sutil.

Alguns exemplos desse estágio:

A criança pode começar a falar de forma manhosa por estar cansada; a movimentar-se mais exageradamente num “levanta e senta” por começar a se sentir impaciente; ou, ao ver algo que lhe desperta uma grande vontade (como um brinquedo ou um doce), acende uma expectativa e diz que quer ter aquilo.

O que fazer:

Normalmente, os adultos respondem a esse estágio com um “espere um pouco mais” ou um “agora não” e não se dão conta do momento-chave em que estão. Nessa etapa, o pavio se acende e começa a queimar.

Esse é o momento de dar atenção intensa para a criança, afinal, precisamos ajudá-la a lidar com o que está sentindo!

Precisamos, primeiro, tentar entender a necessidade da criança que está por trás do comportamento nesse momento: ela tem necessidade de descanso físico ou trata-se de uma necessidade de atenção ou de prazer?

A partir dessa resposta, conseguimos avaliar a situação e decidir se podemos:

  • atender à necessidade – ir embora se ela estiver cansada, comprar o doce se for o momento adequado, brincar com a criança se ela estiver pedindo atenção;
  • se vamos conversar com ela para explicar a negativa – “entendo que você sentiu muita vontade de ter isso agora, mas neste momento não será possível porque…”;
  • ou buscar outras alternativas – “não podemos comer o doce antes do almoço, mas podemos levá-lo para você comer depois do almoço”.

Tudo que não cabe nesta etapa é negligenciar a necessidade que se acendeu na criança. Se assim o fizermos, a queima do pavio se intensificará e a chama se aproxima da bomba mais rapidamente…

ESTÁGIO 2

A resposta do adulto foi superficial e a necessidade da criança negligenciada. Agora, além de ter uma questão interna com a qual não sabe lidar sozinha, a criança tem também a frustração de não ter tido a devida atenção. Conclusão: potência máxima na queima do pavio!

A criança se sente irritada e pouco valorizada e intensifica o comportamento de birra. Aqui vale lembrar que isso, muitas vezes, é inconsciente, então não adianta pensar que a criança “está me irritando de propósito”. Esquece, ela, na verdade está querendo dizer “Me ajuda, por favor! Está muito difícil lidar com isso que está aqui dentro!!!”.

Alguns exemplos desse estágio:

A criança começa a choramingar de forma mais intensa; chama o adulto seguidamente, de forma desagradável, interrompendo conversas ou falando mais alto; ou desobedece a alguns comandos como o de ficar ao lado do adulto, de não correr ou de não pegar algo… Enfim, seus comportamentos se tornam mais intensos e não conseguimos mais ignorá-los.

O que fazer:

Aqui temos mais um risco de potencializar a velocidade de queima do pavio: nós, adultos, perdermos também a paciência! E eis que surge a birra do adulto como resposta à birra da criança… Caos, isso certamente não vai terminar bem!

Precisamos entender que nesse estágio está nossa última chance de tentar reverter a birra. As tentativas devem seguir as mesmas orientações do estágio anterior, mas agora tudo será mais difícil, pois, além da necessidade, temos a frustração da “não atenção” e isso, para a criança, é bem dolorido.

Por isso, aqui, além de ter paciência e das práticas atenciosas, precisamos redobrar as doses de carinho, afetividade! Sério? Isso parece quase um “vire para a direita quando a curva é à esquerda”.

Exatamente! Fomos educados a punir comportamentos inadequados, quando, na verdade, estes são exatamente pedidos de atenção e afeto. É como se estivéssemos dirigindo na lama: você tem que virar para a direita numa curva à esquerda para o carro não escorregar e sair da pista!

ESTÁGIO 3

A bomba explodiu!

Sem chances, todas as possibilidades da criança conseguir lidar com o que está sentindo se esgotaram! Ela não deu conta de administrar aquilo que estava dentro dela e agora precisa colocar tudo para fora de uma vez e faz isso com gritos, choros, movimentos corporais bruscos…

É como se ela quisesse dizer “Socorro! Não sei o que acontece! Tudo está fervilhando aqui dentro e não controlo mais nada! Vou explodirrrrrrr!!!”.

E explode mesmo!

Alguns exemplos desse estágio:

Acho que esse estágio é bem fácil de identificar, não é?

A criança chora intensamente, grita, empurra ou bate em quem se aproxima, se joga no chão, arremessa coisas e, às vezes, até agride fisicamente a si mesma (bate a cabeça na parede, se arranha, se morde).

O que fazer:

Depois dos dois primeiros estágios da birra, precisamos entender que as estratégias anteriores não cabem mais. Ao menos, não nesse momento.

Temos, novamente, que avaliar o contexto: onde estamos, riscos da criança se machucar ou machucar alguém, limites ao redor que não podem ser desrespeitados, etc.

A partir disso, podemos decidir se vamos conter o comportamento (sempre com muito respeito e cuidado para não ferir a criança, é claro!); se vamos nos aquietar completamente até que o “extravasar” cesse e a criança caia em si novamente; ou se vamos conduzi-la a algum lugar apropriado onde ela pode ter um tempo para se reestabelecer.

Nessa situação, após a disruptura, a criança experimenta um sentimento muito ruim, que pode ser uma profunda tristeza ou vergonha, culpa ou uma dor pela frustração de não ter terminado bem a situação anterior. Por isso, esse momento, após a crise, é quando as únicas coisas que não devem acontecer são broncas ou sermões.

A criança já está mal o suficiente, não precisamos fazê-la sentir-se ainda pior. Novamente, temos que ajudá-la a lidar com o que restou ali dentro.

Aqui cabem conversas, explicações, trocas, buscas por alternativas positivas. Tudo sempre permeado de muito carinho, amor e respeito. Não se joga um litro de álcool em um machucado sangrando, certo? Vai arder demais!

Nesse momento, é preciso demonstrar à criança que ela não está sozinha, que é amada e que está aprendendo a lidar com a vida e com seus sentimentos.

É preciso ouvi-la, acolher suas razões e necessidades.

Ser ouvida com atenção e carinho é um dos maiores acalentos que uma criança pode receber e o remédio perfeito para o “pós-birra”!