Emoção errada existe?

Emoção errada existe?

Entender o que nos causa cada sentimento é prioritário para que possamos nos conhecer melhor e dominar nossos impulsos

Enquanto os adultos precisam dessa compreensão para viver melhor, as crianças necessitam dela para se construir.

Muitas vezes, nossas emoções são geradas por situações específicas, sendo fruto dessa experiência vivida.

Entender que um menino está triste porque quebrou seu caminhão, que uma menina está alegre porque comeu um delicioso sorvete ou que outro sente medo porque uma tempestade se aproxima pressupõe ser capaz de identificar as origens das emoções.

As crianças começam a ser capazes de atribuir causa às emoções por volta dos três anos, e, quanto maiores estão, mais desenvolvem essa habilidade, evoluindo em sua regulação emocional.

Outro aspecto importante para a construção da inteligência emocional da criança é a liberdade para sentir.

As crianças necessitam dessa liberdade para se conhecerem e se desenvolverem de forma equilibrada e completa. Elas precisam compreender a ideia de que sentir algo é natural e que não há sentimento certo ou errado.

Precisamos permitir a elas que sintam raiva, tristeza, medo e que possam expressar-se sem receio de julgamento. Os adultos sentem alegria, calma, mas também raiva, medo e dor. Ora, e as crianças, não têm o direito de sentirem também?

Elas não estão prontas e, por diversas vezes, erram os caminhos a seguir, por isso precisam de orientação e apoio dos adultos para seguirem em frente.

O problema não está em sentir raiva ou medo, por exemplo, mas nas formas ainda muito imaturas que as crianças podem encontrar para expressá-los.

Este é o campo em que devemos atuar, reorientando de forma respeitosa a atitude que a criança tem diante de suas emoções, mas sem bloquear seus sentimentos.

O primeiro passo a ser dado pelo adulto deve ser quanto à validação desse sentimento, ou seja, o reconhecimento do sentimento da criança como legítimo.

Diante de uma situação de briga, por exemplo, se o adulto diz à criança que esta não precisa sentir raiva ou que não deve ficar brava, isso a confundirá na identificação do que está sentindo.

O adulto deve ajudar a criança reconhecer sua emoção e não reprimi-la

Vamos lembrar que as crianças tendem a acreditar fielmente no que os adultos lhes dizem e, por isso, negar-lhes algo que estão sentindo no momento pode ser prejudicial para a formação de sua identidade.

Mais produtivo seria dizer-lhes, por exemplo: “Sei que você está muito brava, estou vendo isso. Você não gostou do que seu amigo fez, mas podemos conversar e resolver o problema. Venha aqui e eu te ajudarei”.

Entender as causas da emoção que sentem ajuda os pequenos a desenvolverem sua autogestão, pois a partir do momento que entendem o que se passa com eles e o que lhes causou esse sentimento, estão prontos para refletir sobre as atitudes ideais diante de cada situação.

Outro ponto importante a ressaltar é quanto à leitura que o adulto faz dos sentimentos dos pequenos.

As crianças são diferentes, únicas e sentem as coisas cada uma a sua maneira. Assim, o que pode passar despercebido para uma criança, pode ser motivo de grande desapontamento para outra.

Um dos mecanismos mais utilizados pela criança numa explosão emocional é o choro.

Muitas vezes mal interpretado e tido como birra, manha, frescura ou até mesmo manipulação, o fato é que o choro da criança sempre traz consigo uma tentativa de comunicação.

Trata-se de uma válvula de escape e é, em alguns momentos, o único recurso com o qual ela conta para comunicar o que está sentindo. Reprimir essa expressão emocional é como vedar uma panela de pressão e, cedo ou tarde, as consequências aparecerão.

A criança precisa aprender a lidar com suas frustrações, dores e dificuldades, mas para isso cada uma tem seu tempo. Ela não pula etapas em seu desenvolvimento emocional, portanto, se há algo que não aprendeu a lidar no passado, trará consigo até que encontre a solução para lidar com a tal dificuldade.

Quando choram, os pequenos expõem sua fragilidade e o respeito a esse sentimento deve ser muito genuíno, tanto por parte do educador quanto por parte dos amigos.

Ora, se todas as crianças choram em algum momento de suas vidas (e até mesmo os adultos), por qual motivo deveriam os colegas rir de alguém que está chorando?

Costumamos sugerir a ideia de se trabalhar o “tanquinho de lágrimas”, mostrando a elas que todos nós temos um tanquinho internamente e que, quando ele está cheio, precisamos esvaziá-lo, então choramos. Assim, aos poucos, elas aprendem que hoje o tanque de lágrimas do meu amigo está cheio e amanhã talvez isso aconteça comigo.

É realmente muito importante permitir que uma pessoa chore porque, do ponto de vista biológico, o choro está relacionado a um instinto de defesa e é também um recurso de comunicação que pode expressar dor, sofrimento, alegria e até prazer.

Podemos trabalhar os motivos que levam a criança ao choro, a fim de ajudá-la a encontrar mecanismos de lidar com o que está sentindo e superá-lo.

Vale aqui ressaltar que aprender a controlar os sentimentos significa conseguir administrá-los para que calmamente se escolha a melhor atitude a se ter. E isso é completamente diferente de conter o sentimento, não permitindo que ele apareça. Essa contenção, sim, é altamente prejudicial à formação dos pequenos.

Segundo a professora de psicologia da Universidade do Rio de Janeiro, Luciana Rizo, chorar faz bem à saúde, entretanto, é necessário trabalhar a forma de expressão desse choro.

Para isso, em todas as situações, as conversas são sempre muito bem-vindas, pois abrem espaço para que as crianças falem de si, do que sentem e com isso possam se conhecer melhor e se deixar conhecer também. É preciso aproveitar esses momentos, eles são únicos e muito produtivos!

erradaCertamente os adultos se surpreenderão com o rumo das conversas! Vale a pena experimentar. Mergulhem nessa experiência!