Passos para a nova educação

Passos para a nova educação

No discurso, passamos pela era da educação centrada no professor, seguimos para a educação centrada no aluno e agora estamos na era da educação centrada na relação.

Um fluxo linear na teoria, mas muito diferente do que encontramos ao notar a prática: muitas aulas em que os alunos sentam-se enfileirados e em silêncio para absorver conteúdos transmitidos pelo professor, algumas propostas bacanas de projetos com foco na atuação do aluno, mas escassas propostas que envolvem um “construir e descobrir juntos” acontecendo entre professor e aluno.

Que deter a informação deixou de ter o mesmo valor de anos atrás, todos sabemos. Que aprender a aprender tem se tornado, cada vez mais, a “bola da vez”, também não discutimos e que as habilidades socioemocionais são imprescindíveis na escola, o confinamento não deixou dúvidas: evidente que sim!

Então, se todos sabemos disso, por que há tanta dificuldade em mudarmos a realidade de nossas escolas? E se quisermos desenhar esse caminho, o que é preciso considerar?

A experiência do ensino remoto nos exigiu um movimento sem precedentes e isso “descolou” a educação do formato tradicional, conhecido e supostamente seguro. Cada escola precisou testar, inovar e enfrentar a tempestade escolhendo seus próprios caminhos e isso fez com que novas possibilidades surgissem, antigas identidades se abalassem e muitas, muitas descobertas acontecessem.

Diante de tudo o que temos acompanhado, eu destacaria aqui pontos-chaves a serem considerados para a construção do “novo normal” na educação:

  1. Capacidade dos alunos: a habilidade que crianças e jovens têm de aprender é algo ainda surpreendente para muitos adultos. Nossos alunos são muito mais adaptáveis, ágeis, flexíveis do que nós. Basta olharmos, por exemplo, para a facilidade com que dominaram o uso das ferramentas tecnológicas no ensino remoto. Ligam/desligam câmeras, mutam/desmutam microfones, encontram mil desculpas quando não querem participar, “dão migués ou dão balão” e encontram mil artifícios para justificar um sono a mais numa aula ou para “enrolar” adultos quando querem… Aprenderam muitas coisas sozinhos e são extremamente criativos, mas, muitas vezes, utilizam essas habilidades de forma oposta às que solicitamos nas aulas. Por quê? São “descomprometidos e incapazes de aprender os conteúdos” ou “nossas práticas são desinteressantes e os conteúdos, desnecessários”? Essas são perguntas difíceis de responder, mas muito honestas se aplicadas ao processo de autoavaliação.
  2. Relação família/escola: o ensino remoto desnudou-nos totalmente. Colocou pais dentro das salas de aulas e escolas dentro das casas das famílias. Quantos constrangimentos não surgiram a partir dessas experiências? Professores assustados com broncas de pais aos filhos, pais indignados com a falta de atratividade das aulas, excesso de atividades ou cansaço dos filhos? Qual a fragilidade das relações até então construídas?
  3. Valorização dos professores: a grande importância dos professores no processo educacional ficou evidente com o ensino remoto, mas como corresponder às expectativas de qualidade que estão surgindo quanto à atuação destes? Como podemos apoiar nossa equipe escolar para que consiga equilibrar importância, demandas e capacidades? Educação continuada, busca por processos e práticas atuais e conexão com alunos precisam sair da teoria e habitar a prática. Não há mais espaço para discursos, precisamos agir.
  4. Conexão e vínculo: se há anos encontrávamos nas escolas a percepção de que “no ensino fundamental 2 as crianças já estão grandes e precisam aprender a se virar sozinhas, por isso muitos professores, muitos conteúdos e pouco vínculo são determinantes”, hoje ainda sofremos com as lacunas geradas por tal percepção. Estudos de neurociência e psicologia nos trazem conhecimentos sobre o quanto vínculo e proximidade existentes entre professor e aluno impactam significativamente resultados acadêmicos e sobre a importância que um professor tem como referência humana para os alunos.

Sim, considerar esses quatro pontos nos ajuda a repensar a educação que queremos oferecer a nossos alunos no momento pós-crise. Escolas, famílias e alunos se “descolaram” do modelo tradicional e seguirão caminhos muito diferentes no pós-crise. Diante disso, cabe a reflexão: qual será o caminho da nossa escola? Quais passos precisamos dar?

Minhas sugestões para a construção desse novo caminho contemplam algumas definições:

  • O QUE ALMEJAMOS: “Se não sabemos onde queremos chegar, qualquer caminho nos serve” (Alice no País das Maravilhas). Aqui minha sugestão é para que escolas reflitam e desenhem claramente seu propósito, a identidade que querem manter para, em seguida, traçarem objetivos claros de construção: o que queremos oferecer, para que educamos e que tipo de alunos queremos formar?
  • COMO FAREMOS: Nesse aspecto, é preciso entender o que funciona ou não, o que desperta interesse ou não, e aqui as habilidades determinantes são coragem e abertura. Coragem para nos abrir e abertura para ouvir sem filtros ou julgamentos o que famílias e alunos têm a dizer sobre suas percepções. Conhecer, sob o ponto de vista de outros, o que funciona bem ou não, o que é interessante ou chato, o que esperam e como gostariam de aprender é tão desafiador quanto enriquecedor. Os alunos são os melhores termômetros que podemos ter e, ao mesmo tempo, os melhores aliados para reconstruirmos nossas práticas.
  • QUANDO FAREMOS: O processo é longo, não há como queimar etapas nesse desenvolvimento e nem como acertar 100% desde a primeira tentativa. “Erros fazem parte da inovação e muito mais importante do que não errar, é ter a capacidade de aprender com o erro e evoluir a partir dele.” Pensar sobre quais são os primeiros passos a serem dados e quais as estratégias que usaremos para impedir uma estagnação ou acomodação ao longo do caminho são determinantes. O novo normal nos exigirá novos aprendizados, novas práticas e muitas, muitas quebras de paradigmas.
  • COMO COMUNICAREMOS: Se comunicação não fosse importante, não haveria tantos investimentos em propagandas e marketing. E se comunicação é a alma do negócio, então além de comunicar claramente o que queremos, precisamos garantir que seremos entendidos. Aqui vale considerar o quanto a comunicação é uma via de mão dupla, ou seja, comunicamos algo, recebemos a resposta, processamos essa resposta para redesenharmos práticas e a nova comunicação. Para isso a clareza ao comunicar e abertura ao receber resposta são essenciais.
  • MENSURAÇÃO: Só conseguimos saber o que está funcionando ou não a partir da mensuração. Para ter a exatidão da temperatura, há que se usar um termômetro e esse ponto é tão delicado quanto simples. Se quero saber algo, posso perguntar. Simples. Mas o quão preparado estou para receber a resposta, principalmente se ela for diferente da que eu gostaria de ter? Delicado… mas essencial…

As melhores respostas estão ao nosso alcance: alunos.

As melhores estratégias podem ser encontradas: aprender a aprender.

As melhores conexões podem ser construídas: parceria família/escola.

O caminho é novo e os desafios, promissores, mas não estamos sozinhos. Não precisamos estar, afinal, todos sabemos que:

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”

 

Renata Melo
Fundadora da LUDIE
https://www.linkedin.com/in/renata-melo-7280989b/