Sutilezas da educação

Sutilezas da educação

A infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento. Pensar a infância como um outro é, justamente, pensar essa inquietação, esse questionamento e esse vazio.”
(LARROSA, J. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascarados. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004)

A infância como um outro… a que essa reflexão nos remete?

A mim, me propõe uma enorme desconstrução de convicções e um convite a um novo olhar, curioso, que busca por novos saberes e que se depara com as sutilezas existentes nesse tão complexo ato de “educar”.

Educo por quê? Educo para quê? Qual o produto-final desse meu empenho?

E quais sentimentos esse produto-final desperta em mim, enquanto educador, e nos meus educandos, sejam eles meus filhos, alunos ou minha equipe de trabalho?

Educar é um verbo complexo, uma ação que arrisco dizer ter quase “vida própria”. Repleta de sutilezas, desafios, antagonismos, em alguns momentos, contempla em si a sábia arte de reconhecer presente a famosa afirmação de Sócrates: “só sei que nada sei”.

Reconhecer na infância um outro com valores e saberes sendo alguém que pensa, sente e age diferente de mim pode ser tão desafiador quanto libertador. E, na minha opinião, eis aí uma das grandes sutilezas da educação: orientar, inspirar, conduzir, sem controlar, definir ou ancorar.

Enxergar numa simples brincadeira de criança ou na fala espontânea de um adolescente um universo de possibilidades que se abre e que pode se ampliar a partir do compartilhar de curiosidades, de experiências e de percepções é o primeiro passo na construção de mais um saber para ambos.

Quando me despojo de minhas convicções absolutas e me abro a encontrar diferentes alternativas nesse compartilhar de experiências com alguém que é diferente de mim, substituo a prática tradicional por uma presença que inspira, que amplia e que motiva.

É aí que o primeiro desafio se transforma na linda descoberta de educar alguém que não sou eu, mas que, junto comigo, aprende, conhece, descobre, cria e amplia.

E outro produto nasce dessa troca: a deliciosa experiência de ver o brilho do novo saber surgindo no olhar de um educando, uma experiência que nos preenche com sentimentos plenos de satisfação e de alegria e que se segue com o antagonismo que também acompanha a linda arte de educar: “a arte de disponibilizar-se inteiramente para, pouco a pouco, se fazer desnecessário na construção desse alguém que se descobre, aprende, amadurece e se torna cada vez mais capaz de caminhar com as próprias pernas.”

Assim, aos poucos, vamos aprendendo com essa infância passageira, que preenche nosso presente, alimenta nosso futuro e promove em nós mudanças profundas que duram uma vida toda, afinal:

Educar, dentro de toda a sua complexidade, consiste em se tornar, pouco a pouco, desnecessário para a prática, mas cada vez mais presente nas lembranças do coração. Assim entregamos nossos alunos no final de cada ano, vemos nossos filhos crescerem e reafirmamos Paulo Freire ao concluir que, sempre, “quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender”.

É esse o caminho que percorro como mãe, como educadora, como alguém que percebe a educação como “a linda e complexa arte de viver com”.

Assim aprendo, assim melhoro e, a cada dia, me reconstruo a mim mesma. Ao olhar para trás, me deparo com emoções que misturam um pouco da saudade por aquilo que passou, com a satisfação por aquilo que se construiu e a esperança de tudo o que ainda está por vir.

É assim que sinto a educação. É assim que vivo a educação!

Renata Melo