Alunos autônomos, como?

Alunos autônomos, como?

“Nossos alunos precisam ser mais autônomos. Nossos jovens precisam assumir suas responsabilidades. Nossos filhos precisam ser menos dependentes…”

Acho que essas frases estão entre as top 10 mais ouvidas por mim e por muitos que respiram educação e buscam insistentemente por evolução. Então o convite aqui é para “olharmos para elas” usando um prisma um pouco diferente do convencional.

Primeiro questionamento: essas mudanças devem partir dos alunos (crianças, adolescentes e jovens) ou de nós, adultos?

Segundo questionamento: será que temos profundidade de conhecimento sobre os significados (não teóricos, mas práticos) dos termos independência, autonomia, liberdade e responsabilidade?

Então vamos lá. Hora de mergulhar…

Independência e autonomia são palavras que muitas vezes aparecem como sinônimos, mas, na realidade, são um tanto diferentes.

Quando nos referimos à independência, estamos tratando da capacidade de fazer algo sem ajuda de outros. O famoso “já consigo fazer sozinho”.

Quando consideramos a autonomia, porém, “o buraco é mais embaixo”. Autonomia contempla a capacidade da pessoa se autogovernar, ou seja, “escolher fazer algo” a partir de um livre arbítrio. Nesse caso, o aluno, por exemplo, cumpre uma responsabilidade não porque isso lhe foi exigido, mas por entender sua importância e seu papel diante dela.

Nessa primeira reflexão, a pergunta que podemos nos fazer enquanto educadores já gera um certo desacomodar… O que espero de meus alunos ou filhos é independência (que consigam fazer) ou autonomia (que queiram fazer)? E minhas ações conduzem a qual delas?

É claro que essa questão precisa ser contextualizada e que várias interpretações ou respostas diferentes podem surgir e como aqui o propósito não é levantar julgamentos de certo/errado, mas, sim, ampliar reflexões, vamos seguindo em frente…

“Como estruturar a formação de alunos autônomos e responsáveis?”

Autonomia, necessariamente, se constrói a partir da liberdade concedida. Esse é um conceito ainda pouco considerado e que evidencia a proporcionalidade direta existente entre dois pilares estruturais: liberdade e responsabilidade.

Liberdade só existe de forma equilibrada quando é acompanhada de responsabilidade e isso precisa ser claramente apresentado a alunos e famílias para que entendam sua parte no processo de amadurecimento. “Quando “ganho” liberdade para algo, esta, necessariamente, vem acompanhada de uma responsabilidade acessória e, ao dar conta de assumi-las, o aluno mostra-se capaz no processo e o produto-final dessa equação é a autonomia adquirida.”

Por isso, dosar medidas de liberdade e responsabilidade ao longo das etapas escolares é essencial e a orientação adequada às famílias sobre essa construção é determinante para o sucesso do trabalho conjunto. Nem escola, nem família constroem crianças ou jovens autônomos isoladamente. Os papéis são complementares.

Para que esse processo aconteça, devemos contemplar:

  • Revisão de momentos de liberdade e escolha: alunos precisam “sentir” a liberdade para que passem a experimentar sua administração, e reflexões participativas são essenciais para que esse aprendizado seja orientado, e não apenas solto. Espaços de escuta em que haja livre expressão e pesquisas de opinião funcionam bem. Para alunos maiores, à medida que alguns “pedidos” são aceitos, contrapartidas podem ser apresentadas: “Essa experiência de liberdade pressupõe essa dose de responsabilidade. Como é isso para vocês?”. Para menores, diminuição de controles pode funcionar, tais como regras para ir ao banheiro, sair da sala ou sobre comportamentos ao final das atividades.
  • Revisão de conceitos: o que entendemos como conceitos de “desobediência” e liberdade para “questionamentos”? Esse ponto é delicado para muitos pais e professores, pois traz para os dias atuais conceitos rígidos que funcionavam bem anos atrás, mas que hoje precisam ser revistos. “Como as crianças precisavam se portar quando tinham uma dúvida no final do século passado e como esperamos que se portem nos dias de hoje?”. Alinhar práticas, expectativas e realidades pode gerar uma enorme economia de energia em esforços de controle e contenção.
  • Orientação às famílias: a escola tem um papel de formar alunos e uma grande possibilidade de orientar famílias, ajudando-as a conhecer melhor seus filhos. Não de forma exigente, mas num formato de “suporte e apoio”, a escola pode fornecer conhecimentos que aumentem a confiança da família em suas capacidades e a abertura desta para receber e praticar suas orientações. Acolhimento, empatia e parceria são palavras da vez.

O fato é:

Se queremos colher resultados diferentes, não podemos manter as mesmas estratégias.

O momento é propício para novas reflexões que gerem novas construções.

O mundo está mudando, as sociedades estão se reorganizando, a educação terá transformações… E você, no final desse processo, quem será?

Renata Melo
Fundadora da LUDIE
https://www.linkedin.com/in/renata-melo-7280989b/

 

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