Setembro Amarelo, educação socioemocional e a importância de falar sobre saúde mental

Setembro Amarelo, educação socioemocional e a importância de falar sobre saúde mental

LUDIE acredita no diálogo e escuta igualitários, na atenção às crianças, adolescentes e jovens e na educação socioemocional para a prevenção ao suicídio

Este ano a preocupação com a saúde mental teve contornos diferentes e recebeu destaque no mundo todo com a pandemia da Covid-19. Com isso, o debate que antes era pertencente ao Setembro Amarelo, tem se estendido ao longo dos últimos meses.

Em pouco tempo e sem preparação, crianças, adolescentes, jovens e nós, adultos, tivemos que lidar com vírus desconhecido, protocolos de saúde, higiene, distanciamento, confinamento, medo, incertezas, internet, tecnologia. Nossa casa se tornou escola tanto para os professores, coordenadores, gestores quanto para as famílias. É muita coisa ao mesmo tempo!

Respiremos…

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção ao suicídio. O dia 10 deste mês é oficialmente o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, desde 2014 a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza nacionalmente a campanha dedicada ao mês, que se estende no ano todo.

Prevenção ao suicídio começa na infância

A prevenção ao suicídio inicia na infância porque nesse período as crianças estão numa importante fase de estruturação psíquica, começando a consolidar as bases que irão estruturar o escopo emocional que terão para lidar com as adversidades da vida. E é justamente na infância que as causas, que podem ser muitas, começam a aparecer. Por isso, podemos dizer que determinados nós que a criança tem dificuldade de desatar, porque não recebeu recursos nessa fase, tenderão a continuar presentes ao longo de toda a sua história.

Apesar de triste, é fato que atualmente muitas crianças não têm – ou têm pouco – espaço para se expor, para falar de seus sentimentos, para serem ouvidas ou valorizadas. Muitas não encontram espaço para compartilhar suas dúvidas, suas dores ou angústias. Há ainda uma parcela de crianças, adolescentes e jovens que vivem realidades muito doloridas, de violência, medo e negligência. Em ambos os casos, necessidades, dores, desânimos se acumulam, e acumulam, e acumulam…

Tais questões mostram que há necessidades das crianças, adolescentes e jovens que precisam ser notadas e consideradas por todos nós! Família, escola, professores, amigos, sociedade, todos somos responsáveis por nutrir as necessidades de nossos filhos e alunos. Não é uma questão de se procurar culpados, mas, sim, de cada adulto que convive com eles se fazer constantemente a pergunta: “Como posso contribuir para o desenvolvimento saudável dessa criança, adolescente ou jovem?”.

Saúde mental como um iceberg

Quando aprofundamos no assunto, percebemos o iceberg que envolve a saúde mental e revela como o suicídio de crianças, adolescentes e jovens tem se tornado mais próximo das famílias. O suicídio pode ter várias causas e muitas delas ainda são desconhecidas ou pouco estudadas. Mas o que encontramos nessa realidade são crianças, adolescente e jovens com dificuldades ou lacunas não preenchidas que não foram percebidas ou atendidas em suas demandas.

Estudos mostram que desânimos profundos, depressões ou até casos de suicídio têm muita relação com a perda de sentido da vida que se leva (como mostra o artigo de Maria de Fátima Scaffo, 2006).  Quando um adolescente (ou até uma criança) não consegue acreditar que haja uma saída para aquilo que ele está vivendo, quando não consegue encontrar respostas e não tem estrutura para lidar com sua dor, pode apresentar comportamentos que coloquem a sua vida em risco.

Suicídios, transtornos psíquicos, como pânico, ansiedade, crises emocionais graves e busca de drogas podem ter essas origens. E, novamente, o que mais caracteriza essas realidades são o acúmulo de dores, frustrações e angústias que se apresentam não como questões pontuais, mas dores contínuas que se somam.

Pesquisa aponta aumento de ansiedade e tristeza em jovens na pandemia

Mais do que nunca, crianças, adolescentes e jovens têm apresentado uma enorme carência e necessidade de atenção à saúde mental e socioemocional. Tanto que uma pesquisa nacional do instituto Datafolha, em parceria com a Fundação Lemann, o Itaú Social e a Imaginable Futures, apontou aumento de ansiedade e tristeza em jovens na pandemia.

A terceira fase da pesquisa “Educação não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias”, de abrangência nacional, foi realizada entre 7 e 15 de julho, com responsáveis por 1.556 estudantes de 6 e 18 anos de escolas municipais e estaduais do país, com uma amostra baseada no  Censo de Educação 2019. Com o longo tempo de confinamento no Brasil, até mesmo famílias mais equilibradas enfrentam um esgotamento, como apontou Laura Mattos, para a Folha.

“A falta de motivação, que em maio atingia 46%, chegou a 51% em julho. Os que enfrentam dificuldades para manter a rotina saltaram de 58% para 67%. O percentual dos que estão tristes começou a ser medido em junho, quando chegou a 36%, e passou para 41% em julho. No mesmo período, o de irritados foi de 45% para 48%. Somam 74% os que se sentem tristes, ansiosos ou irritados”.

E como podemos atuar diante desse cenário?

Somos figuras de importância para eles e capazes de impactá-los significativamente. Nós, na LUDIE, acreditamos que enquanto familiares e educadores, podemos acolher nossas crianças e adolescentes, ter a sabedoria de olhá-los nos olhos, ouvir e lhes dar a devida atenção e demonstrar confiança e estima pelo que são – mesmo agora através das telas. E precisamos, principalmente, entender suas necessidades e oferecer suporte adequado, procurando ajuda especializada se for preciso.

Por mais que determinada dor possa parecer banal a um adulto, para a criança, adolescente ou jovem, ela é real e, às vezes, pode doer mais do que ela seja capaz de suportar. Sentir-se negligenciado é uma dor pesada demais para muitos deles. Por isso, promover em casa e na escola espaços de escuta, de diálogo e de acolhida é essencial para o desenvolvimento infantil, pois promove na criança, no adolescente e no jovem saúde interna, mental, equilíbrio emocional, resiliência para lidar com adversidades e habilidades de autogestão para esperar o tempo de mudança.

Nunca podemos negar ou banalizar a dor de uma criança, adolescente ou jovem. Lembre-se: se ela chega até você, esta pode ser a única opção dessa pessoa que não encontra espaço para compartilhá-la. E se ela encontra apoio e alternativas nessa fase será muito mais difícil dela, mais a frente, apresentar problemas maiores em seu desenvolvimento que possam levar a comportamentos que apresentem riscos à sua vida ou à sua integridade física e emocional.

Recomendações que podemos colocar em prática

  • Esteja atento a seus filhos/alunos: tristeza, desânimo, dores emocionais todos têm. Mas se algum deles apresenta comportamentos associados a essas questões com muita frequência pode não estar dando conta do que sente.
  • Converse com as crianças, adolescentes e jovens, abra espaço para falarem de suas dores e inquietações. Nessa idade, elas existem e são muitas, seja por questões vividas, seja pelos desafios emocionais comuns a essa fase. Ainda mais agora que o ensino remoto e o confinamento têm agravado muitas questões envolvendo a saúde mental e emocional. O fato é que todas as pessoas precisam de espaço para expor seus sentimentos.
  • Atente-se e se abra a crianças, adolescentes e jovens muito quietos que tendem a passar despercebidos, pois não “causam grandes barulhos”. Eles são naturalmente mais quietinhos ou, na realidade, contêm muitas de suas emoções?
  • Se notar muita tristeza ou desânimo em alguma criança ou adolescente, procure ajuda profissional de uma psicóloga na sua cidade. Caso seja seu aluno, procure comunicar a família.
  • Além disso, você pode propor para a sua escola alguma iniciativa sobre saúde mental, convidando algum profissional especializado, como psicólogo ou psiquiatra, para conversar com seus alunos e a equipe escolar. Que tal propor um projeto permanente?

 

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